Fone de ouvido e saúde auditiva: como ouvir sem colocar a audição em risco
Por Dr. José Stênio Ponte, otorrinolaringologista e sócio fundador do Grupo OtorrinoDF · CRM-DF 17362 · RQE 8843
O fone virou parte da rotina
Música no caminho do trabalho, reuniões on-line, podcast na academia, série antes de dormir. Para muita gente, o fone de ouvido passa mais horas no ouvido do que fora dele.
Esse foi o tema da minha entrevista à Rádio Metrópoles 104.1 e também da matéria Audição saudável, publicada pelo Correio Braziliense, em que respondi às perguntas do quadro "Palavra do especialista". É também uma das dúvidas mais frequentes no consultório: usar fone faz mal?
A resposta curta é que o fone, por si só, não é o vilão. O que pesa é como ele é usado: o volume, o tempo de exposição e os cuidados com o equipamento.
Por que o som alto lesa a audição
Dentro da orelha interna fica a cóclea, onde milhares de células ciliadas transformam a vibração do som em sinais nervosos que o cérebro interpreta. Sons intensos e prolongados sobrecarregam essas células e podem lesioná-las.
O problema é que esse dano costuma ser silencioso e cumulativo: não dói e vai se somando ao longo de meses e anos. Como as células ciliadas não se regeneram, a perda auditiva induzida por ruído tende a ser permanente. Zumbido ou sensação de ouvido abafado depois de usar o fone são sinais de que o limite foi ultrapassado.
Volume e tempo: os dois fatores que mais importam
Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), o risco depende da intensidade do som, do tempo e da frequência de exposição. Como referência, a OMS considera que adultos podem se expor a sons de até 80 decibéis por até 40 horas por semana; para crianças, o limite cai para 75 decibéis. Quanto mais alto o volume, menor o tempo seguro.
O alerta é global: a OMS estima que mais de 1 bilhão de jovens entre 12 e 35 anos estão em risco de perda auditiva por hábitos de escuta inseguros, principalmente pelo uso de fones.
Regra prática 60/60: volume abaixo de 60% do máximo e pausa a cada 60 minutos.
Outro teste simples: se alguém ao seu lado consegue ouvir o som do seu fone, ou se você não escuta uma pessoa falando com você a um braço de distância, o volume está alto demais.
Vale também ativar os recursos de saúde auditiva do celular, que mostram o nível de exposição sonora e permitem limitar o volume máximo.
Ambientes barulhentos: a armadilha do volume
No ônibus, no metrô ou na academia, a tendência natural é aumentar o volume para "vencer" o barulho ao redor. Fones com boa vedação ou com cancelamento de ruído reduzem essa necessidade e permitem ouvir bem com volume mais baixo.
Um cuidado: na rua e no trânsito, isolar demais o som ambiente diminui a percepção de buzinas e alertas. Nesses momentos, segurança em primeiro lugar.
Fone intra-auricular, cera e infecções
O fone intra-auricular, aquele que entra no canal, ocupa o conduto auditivo por várias horas e pode atrapalhar o mecanismo natural de eliminação do cerume. Além disso, ao colocar o fone repetidamente, a pessoa pode empurrar a cera para regiões mais profundas do canal. Com o tempo, isso pode formar uma rolha de cerume, com sensação de ouvido tampado, abafamento, desconforto e redução temporária da audição.
Em relação às infecções, o fone isoladamente não é necessariamente o causador de uma otite. Mas o uso prolongado, o excesso de umidade, a falta de higiene do equipamento e o compartilhamento de fones criam condições favoráveis à irritação da pele do canal e à proliferação de microrganismos, como na otite externa e na micose de ouvido.
Limpe o fone e as ponteiras com frequência, seguindo a orientação do fabricante.
Não compartilhe fones.
Depois do banho ou da piscina, seque a parte externa da orelha antes de colocar o fone.
Troque ponteiras de silicone ou espuma gastas.
Nunca use hastes flexíveis ou outros objetos para "limpar" o canal: eles empurram a cera e podem ferir a pele ou o tímpano.
Qual tipo de fone escolher?
Intra-auricular: prático e discreto. Fica em contato direto com o canal auditivo, então exige higiene redobrada e pausas.
Que cobre a orelha: não ocupa o canal, o que reduz problemas com cera e umidade. Com boa vedação, ajuda a manter o volume mais baixo.
Com cancelamento de ruído: reduz o barulho externo e diminui a vontade de aumentar o volume em ambientes ruidosos.
Na prática, o melhor fone é aquele usado com volume moderado, por tempo controlado e bem higienizado.
Crianças e adolescentes merecem atenção especial
A audição das crianças é mais sensível, e por isso a OMS recomenda um limite menor de exposição. Prefira fones infantis com limitador de volume, ative os controles de volume do celular ou do tablet e combine pausas. Fique atento a sinais como pedir para repetir com frequência, aumentar muito o volume da TV ou queda no rendimento escolar.
Sinais de alerta: quando procurar o otorrino
Zumbido persistente ou que aparece depois de usar o fone.
Ouvido tampado ou abafado que não melhora.
Dificuldade para entender conversas, principalmente em ambientes com barulho.
Dor, coceira intensa, secreção ou mau cheiro no ouvido.
Tontura associada a sintomas no ouvido.
Perda de audição súbita: procure atendimento o quanto antes, porque o tempo até o tratamento faz diferença.
No consultório, o otorrinolaringologista examina o canal e o tímpano e, quando indicado, solicita a audiometria, exame que mede a audição. Para quem usa fone muitas horas por dia, uma avaliação periódica ajuda a identificar alterações precocemente.
8 hábitos para uma escuta segura
Mantenha o volume abaixo de 60% do máximo.
Faça pausas a cada hora de uso.
Em lugares barulhentos, prefira fones com boa vedação ou cancelamento de ruído.
Use os recursos de controle de volume do celular.
Limpe o fone e as ponteiras com frequência.
Não compartilhe fones.
Nunca introduza hastes ou objetos no canal auditivo.
Procure o otorrino diante de zumbido, ouvido tampado ou dor.
Em resumo
Proteger a audição não significa abrir mão do fone. Significa usar com consciência: volume moderado, tempo controlado, equipamento limpo e atenção aos sinais que o corpo dá. A audição perdida por excesso de ruído não volta, mas pode ser preservada com hábitos simples.
Ficou com dúvidas? Agende sua avaliação no Grupo OtorrinoDF. WhatsApp (61) 3542-2803, agendamentos 24 horas, de domingo a domingo. Veja os endereços e horários de cada unidade.
Dr. José Stênio Ponte, otorrinolaringologista e sócio fundador do Grupo OtorrinoDF · @steniopontedias · CRM-DF 17362 · CRM-SP 127847 · CRM-GO 16664 · CRM-CE 9559 · RQE 8843
Conteúdo informativo. Não substitui a avaliação médica individual.
Referências: Organização Mundial da Saúde (OMS) e União Internacional de Telecomunicações (UIT). Safe listening devices and systems: a WHO-ITU standard (H.870), 2019, atualizado em 2022. Dillard LK et al. Prevalence and global estimates of unsafe listening practices in adolescents and young adults. BMJ Global Health, 2022.
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