Água no ouvido que não quer sair: o que fazer com segurança
Você sai da piscina, inclina a cabeça, dá aquelas batidinhas atrás da orelha e nada: o ouvido continua abafado, como se tivesse algodão dentro. A água parece não querer sair. É uma queixa que aparece todo mês no consultório, porque em Brasília muita gente nada o ano inteiro, em piscina de clube, de condomínio ou aquecida. Na maior parte dos casos a água escorre sozinha em poucos minutos. Quando a sensação insiste, vale entender o que está acontecendo, porque com frequência o que está ali dentro já não é mais água.
Por que a água fica presa
O canal do ouvido (conduto auditivo externo) é um tubo estreito e levemente curvo, fechado no fundo pela membrana do tímpano. A água entra com facilidade, mas para sair precisa vencer essa curva e a própria tensão da gota, que se agarra à parede do canal. Se existe cera acumulada no caminho, a água fica retida atrás dela. Pior: a cera absorve essa umidade, incha e fecha ainda mais a passagem. É por isso que quem tem tendência a produzir muita cera é justamente quem mais reclama de ouvido tampado depois de nadar.
O que costuma resolver nos primeiros minutos
Manobras simples, e sem colocar nenhum instrumento dentro do ouvido, resolvem a maioria dos casos. A ideia é usar a gravidade e o movimento da mandíbula a seu favor, com paciência, sem forçar nada.
Inclinar a cabeça para o lado afetado, com a orelha virada para baixo, e esperar alguns minutos nessa posição.
Mastigar, bocejar ou mexer a mandíbula de um lado para o outro enquanto a cabeça está inclinada.
Puxar o lobo da orelha delicadamente para baixo e para trás, o que ajuda a endireitar o canal.
Deitar de lado sobre uma toalha, com o ouvido voltado para baixo, por dez a quinze minutos.
Secar apenas a parte externa da orelha com a ponta de uma toalha, sem enfiar nada no canal.
Quando já não é mais água
Se a sensação passa de um ou dois dias, a chance de ser outra coisa é grande. Pode ser otite externa, uma inflamação da pele do canal conhecida popularmente como ouvido de piscina, que costuma vir com dor ao tocar a orelha, coceira e às vezes secreção. Pode ser um tampão de cera (rolha de cera) que a umidade empurrou e consolidou. E pode ser algo que nem começou no ouvido: depois de um resfriado ou numa crise de alergia, a tuba auditiva (canal que liga o ouvido ao fundo do nariz) não abre bem, e a pessoa sente exatamente o mesmo abafamento, sem que exista uma gota de água ali dentro.
O ar seco de Brasília entra nessa conta
Brasília passa boa parte do ano com umidade relativa baixíssima, poeira em suspensão e fumaça de queimada no fim da estiagem. Esse ar irrita a mucosa do nariz e deixa a tuba auditiva mais inchada e preguiçosa para equalizar a pressão. O resultado é uma combinação bem típica daqui: a pessoa nada, sai da água, sente o ouvido entupido e atribui tudo à piscina, quando parte do problema é o nariz que vem sofrendo com o clima. Cuidar da hidratação da mucosa nasal faz diferença no ouvido, mesmo parecendo assunto de outro departamento.
O que nunca fazer
A maioria das lesões de canal auditivo que atendemos não vem da água, vem da tentativa de tirar a água. Cotonete, grampo, tampa de caneta e chave empurram a cera para o fundo, machucam a pele fina do canal e abrem a porta para infecção. A vela auricular não tem comprovação de eficácia e já causou queimadura e perfuração de tímpano. Secador de cabelo muito quente ou muito perto da orelha também queima. E pingar qualquer coisa no ouvido por conta própria é risco real: existem preparações usadas para ajudar a secar o canal, mas elas não servem para todo mundo e são contraindicadas para quem tem tímpano perfurado, dor, secreção ou cirurgia prévia de ouvido. Quem decide isso é o exame, não o balcão da farmácia.
Quando procurar o otorrinolaringologista
Procure avaliação se o ouvido continuar tampado depois de dois dias, ou se aparecer dor, coceira intensa, secreção, cheiro ruim, sangramento, zumbido, tontura ou queda da audição. Também vale consulta quando isso vira rotina a cada temporada de piscina, quando se trata de criança que acabou de nadar e começou a reclamar do ouvido, e quando a pessoa já tem tímpano perfurado ou usa tubo de ventilação. No consultório, a otoscopia mostra em segundos o que está ali dentro, e a retirada da cera ou da água é feita com instrumento próprio, sob visão direta, o que é bem diferente de tentar no escuro em casa. Nas quatro unidades do OtorrinoDF, com mais de 60 convênios atendidos, essa avaliação é simples e rápida, e poupa semanas de desconforto.
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