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Como tirar cera do ouvido com segurança: o que funciona e o que machuca

há 10 horas
4 min de leitura

Poucos hábitos são tão repetidos e tão mal compreendidos quanto o de limpar o ouvido. Depois do banho vem o cotonete, quase no automático, com a sensação de que aquilo é higiene básica. Só que o ouvido não funciona assim: a cera não é sujeira, e boa parte dos casos de ouvido entupido que chegam ao consultório começou justamente na tentativa de limpar.


A cera não é sujeira, é proteção


O cerume, nome técnico da cera, é produzido por glândulas da própria pele do canal auditivo. Ele mantém essa pele lubrificada, tem pH ácido que dificulta a vida de fungos e bactérias, e funciona como uma fita adesiva natural que prende poeira, poluição e pequenos insetos antes que cheguem ao tímpano. Ouvido sem nenhuma cera não é ouvido limpo, é ouvido desprotegido, mais sujeito a coceira, descamação e infecção.


Existe ainda um detalhe que quase ninguém conhece: o canal auditivo se limpa sozinho. A pele que o reveste cresce de dentro para fora, como uma esteira lenta, e vai empurrando a cera em direção à saída, com a ajuda dos movimentos da mastigação e da fala. Em um ouvido saudável, a cera chega sozinha à entrada da orelha e sai no banho.



Por que o cotonete piora tudo


O cotonete tem diâmetro parecido com o do canal auditivo. Ao entrar, ele funciona como um êmbolo: leva uma pontinha de cera para fora, aquela que fica visível no algodão e dá a sensação de dever cumprido, e empurra o restante para o fundo. Repetido todos os dias, esse movimento compacta a cera contra o tímpano, onde a esteira natural não alcança mais. O resultado é o tampão, com audição abafada, sensação de ouvido cheio e, às vezes, zumbido e tontura.


Há ainda o risco mecânico. A pele do canal é fina, colada no osso, e se machuca com facilidade, abrindo caminho para inflamação. Em um movimento brusco, um esbarrão, uma criança que chega correndo, a ponta pode alcançar o tímpano e perfurar. O mesmo vale para grampo, chave, tampa de caneta e palito.


Caso à parte é a vela auricular, vendida como técnica natural. Não existe sucção nenhuma: a cera continua no lugar e o que aparece na vela é a própria cera dela, queimada. O risco real é de queimadura e de cera de vela escorrendo para dentro do ouvido.


O que fazer em casa, de fato


A limpeza caseira segura é mais simples do que parece, e toda ela acontece do lado de fora:


  • Lavar a orelha no banho com água e sabonete, passando a mão pela parte externa e pela entrada do canal.

  • Secar com a ponta da toalha, apenas onde o dedo alcança naturalmente, sem empurrar tecido para dentro.

  • Não introduzir absolutamente nada no canal, nem cotonete, nem objeto, nem algodão enrolado.

  • Não pingar nada por conta própria, nem receita caseira, nem produto de farmácia escolhido por indicação de conhecido, nem sobra de frasco de outra ocasião.

  • Quem usa aparelho auditivo ou fone intra-auricular por muitas horas deve limpar e secar o dispositivo com frequência, porque ele retém umidade e atrapalha a saída natural da cera.

  • Se já houve perfuração de tímpano ou cirurgia de ouvido, tratar o canal como área proibida para qualquer tentativa caseira.



Sobre as gotas que amolecem a cera: elas existem, têm indicação própria e não servem para todo mundo. Quem tem perfuração, inflamação ativa ou alergia a algum componente pode piorar bastante o quadro, e ninguém consegue saber se o tímpano está íntegro apenas olhando de fora. Por isso a decisão de usar, e qual usar, é de quem examinou o ouvido.


Em Brasília, a poeira entra na conta


O clima daqui mexe com esse equilíbrio. Na estiagem, com umidade às vezes abaixo de vinte por cento, a cera resseca, endurece e sai com mais dificuldade, enquanto a poeira em suspensão aumenta e exige mais dela. É o que explica por que tanta gente na cidade sente o ouvido entupir justamente no período seco. Na virada para as chuvas aparece queixa parecida por outro motivo, o ouvido tampado por congestão nasal, que não melhora mexendo no canal.


Quando a cera precisa ser retirada


Nem toda cera precisa sair. A remoção se justifica quando ela está causando sintoma, quando impede o exame do tímpano, ou quando atrapalha o uso de aparelho auditivo. Os sinais do tampão são audição abafada de um lado só, sensação de pressão, coceira persistente, zumbido que surgiu junto com o entupimento e a percepção estranha de ouvir a própria voz ecoando.


No consultório, a retirada é feita sob visão direta, com microscópio ou otoscópio, por aspiração ou instrumento próprio, conforme a consistência da cera. É rápida, costuma ser feita no mesmo dia da consulta, e o alívio é imediato.


Quando procurar o otorrinolaringologista


Vale marcar avaliação quando a audição cai de um lado, quando há dor, secreção, mau cheiro, tontura ou zumbido novo, quando o entupimento se repete com frequência, e sempre que alguém tiver tentado remover em casa e sentido piora. A avaliação periódica também é indicada para quem usa aparelho auditivo, tem canal muito estreito ou produz cera em excesso, casos em que acompanhar evita o tampão em vez de remediar depois. O OtorrinoDF tem trinta e três especialistas em quatro unidades de Brasília e atende por mais de sessenta convênios, e a limpeza de ouvido é um dos atendimentos mais comuns da rotina.

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